O que é
Hedge é uma operação montada para PROTEGER uma posição ou carteira contra movimentos adversos — um "seguro" financeiro. Em vez de desmontar a posição principal, o operador abre uma posição contrária correlacionada: se o cenário ruim se concretizar, o ganho do hedge compensa (total ou parcialmente) a perda da posição. O conceito nasceu no mercado de commodities (produtor travando preço da safra) e hoje permeia tudo: carteiras de ações protegidas com índice futuro ou opções, importadores travando dólar, traders protegendo posição em evento binário.
Regras da estratégia
Hedge não é um setup de entrada, mas uma técnica com decisões objetivas:
- O que proteger: identificar a exposição (carteira de ações → risco de queda do índice; custo em dólar → risco de alta do dólar).
- Instrumento: futuros (vender IND/WIN contra carteira de ações; comprar DOL/WDO contra passivo em dólar), opções (comprar PUT da carteira/índice — perda limitada ao prêmio), ou ativos negativamente correlacionados.
- Tamanho (hedge ratio): proporcional à exposição — ex.: carteira de R$ 500 mil com beta ~1 pede vender o equivalente em contratos de índice (valor do contrato = pontos × valor do ponto). Hedge parcial (50%–80%) é comum.
- Vigência: hedge tem começo, meio e fim — protege um EVENTO ou período (eleição, payroll, temporada de balanços), e é desmontado quando o risco passa.
- Custo: todo hedge custa (prêmio da opção, ajuste do futuro, ganho que se abre mão). A regra é saber o custo ANTES e aceitá-lo como preço do seguro.
Entrada, stop e alvo
- Entrada: ao identificar o risco — de preferência ANTES do prêmio de risco encarecer (opções ficam caras na véspera do evento, com volatilidade implícita alta).
- Stop/alvo não se aplicam como num trade direcional: o hedge "dá lucro" justamente quando a posição principal sofre. As decisões são: quanto proteger, até quando, e a que custo.
- Desmontagem: quando o evento passa ou o risco muda; segurar hedge caro sem risco no horizonte só corrói o resultado.
Gestão da operação
- Hedge com futuros tem ajuste diário: prever caixa para as chamadas de margem e ajustes negativos enquanto a posição principal "ganha no papel".
- Hedge com opções: risco limitado ao prêmio, mas o prêmio vira custo certo — comprar proteção sistematicamente sem critério consome retorno.
- Rebalancear: se a carteira muda ou o beta muda, o hedge ratio muda junto.
- Nunca deixar o hedge virar posição especulativa "porque está dando lucro" — a função dele é neutralizar, não gerar resultado.
- Documentar o objetivo: hedge sem tese de risco definida é só uma posição contrária que anula a original.
Quando funciona melhor
- Antes de eventos de risco conhecidos: eleições, decisões de juros (Copom/Fed), balanços, feriados longos com mercado global aberto.
- Para posições que NÃO se quer desmontar (carteira de longo prazo, posição com imposto a realizar, falta de liquidez para sair).
- Ativos B3 usados como veículo: índice futuro (IND/WIN), dólar futuro (DOL/WDO), opções de ações e de índice (as PUTs de BOVA11 são o hedge de carteira mais acessível ao varejo).
Quando falha
Fortes: permite atravessar eventos de risco sem desmontar posições; custo conhecido (opções) ou baixo (futuros); flexível — protege ações, moeda, juros, commodities; reduz a variância do resultado e o estresse emocional. Limitações: custa dinheiro ou limita o ganho — proteção permanente tende a anular o retorno; hedge imperfeito (correlação não é 100%; beta muda) deixa risco residual; complexidade operacional (margem, ajustes, vencimentos, rolagem); erro de tamanho transforma proteção em nova exposição.
- Fazer hedge do tamanho errado (proteger demais = ficar vendido; de menos = ilusão de proteção).
- Comprar proteção no pânico, com volatilidade implícita no topo — o seguro mais caro possível.
- Esquecer o hedge montado depois que o risco passou, pagando custo sem função.
- Usar instrumento descorrelacionado da exposição real ("hedge" que não protege).
- Confundir hedge com aposta: dobrar o hedge "porque o mercado vai cair" é trade direcional, com outro gerenciamento.
Exemplo
Um trader carrega carteira de R$ 300 mil em ações brasileiras e não quer desmontar antes de uma eleição apertada no fim de semana. Compra PUTs de BOVA11 no dinheiro com vencimento após o evento, gastando ~1,5% da carteira em prêmio. Cenário 1: o mercado abre segunda em queda de 6% — a carteira perde, mas as PUTs multiplicam e compensam a maior parte. Cenário 2: o mercado sobe — ele perde o prêmio (o custo do seguro) e a carteira valoriza. Nos dois casos, o resultado ficou dentro do planejado: era proteção, não aposta.
