O que é
Pairs trading (no Brasil, "long & short") é a estratégia de operar DOIS ativos ao mesmo tempo em pontas opostas: compra (long) o ativo relativamente barato e vende (short) o relativamente caro, apostando na CONVERGÊNCIA da relação entre eles — e não na direção do mercado. Se os dois sobem ou os dois caem, pouco importa: o resultado vem do movimento RELATIVO. Exemplos clássicos na B3: pares do mesmo setor (ITUB4 × BBDC4), ON × PN da mesma empresa (PETR3 × PETR4) e ações × índice.
Regras da estratégia
- Selecionar o par: ativos com relação econômica real (mesmo setor, mesma empresa, mesmo driver) e histórico de andarem juntos — correlação alta e, idealmente, cointegração (a DIFERENÇA entre eles é estável e reverte à média).
- Medir a relação: ratio (preço A ÷ preço B) ou spread. Calcular a média histórica da relação e o desvio-padrão (janela típica: 60–252 pregões).
- Gatilho de entrada: relação esticada além de um limiar — ex.: ratio a 2 desvios-padrão acima da média → vende A, compra B (aposta na volta da relação à média). Z-score é a régua padrão.
- Montagem neutra: dimensionar as pontas por VALOR FINANCEIRO (cash-neutral) ou por beta, para que o resultado dependa só do relativo.
- Saída: ratio de volta à média histórica (alvo) ou stop se o afastamento continuar crescendo além de um limite (ex.: 3 desvios) ou após N dias sem convergir.
- Invalidação estrutural: evento que muda a relação (fusão, mudança societária, quebra de fundamento) encerra a operação imediatamente — a média antiga deixou de valer.
Entrada, stop e alvo
- Entrada: z-score do ratio além de ±2 (parâmetro usual) com o par ainda cointegrado; montar as duas pontas simultaneamente.
- Stop: z-score estourando limite maior (ex.: ±3), perda financeira máxima pré-definida no conjunto, ou "stop no tempo" (não convergiu em N dias, desmonta).
- Alvo: z-score de volta a 0 (média da relação); parcial em ±1 é comum.
Gestão da operação
- O risco das duas pontas soma: dimensionar o par como UMA operação com risco definido.
- Custos importam muito: aluguel da ponta short, corretagem dobrada, margem exigida pelas duas pontas — calcular antes se a convergência esperada paga a conta.
- Nunca desmontar só uma ponta para "aproveitar o movimento" — vira aposta direcional sem plano.
- Recalcular a relação periodicamente: correlações mudam; um par que convergia pode "descolar" de vez.
- Atenção a proventos e eventos corporativos nas duas pontas (dividendos afetam o short).
Quando funciona melhor
- Mercados sem tendência definida — a estratégia é aproximadamente neutra à direção, sendo alternativa clássica para períodos laterais.
- Pares líquidos da B3 com aluguel disponível e barato para a ponta vendida.
- Prazo típico: dias a semanas (swing) — convergências intradiárias existem, mas o custo de montagem pesa.
- Exige plataforma/planilha para acompanhar ratio e z-score — é uma estratégia quantitativa por natureza.
Quando falha
Fortes: aproximadamente neutro à direção do mercado (ganha no lateral e em crises, se o relativo convergir); baseado em estatística testável; risco tende a ser mais estável que aposta direcional; diversifica uma carteira de estratégias. Limitações: "relações estáveis" quebram — o par pode divergir por meses (o clássico: o barato fica mais barato); custos e aluguel corroem o retorno; exige capital para margem das duas pontas; complexidade operacional e de acompanhamento bem maior que trade direcional.
- Operar pares só por correlação de preço, sem relação econômica real (correlação espúria).
- Aumentar a posição indefinidamente enquanto o spread diverge ("martingale de spread").
- Ignorar o custo do aluguel e a possibilidade de recall da ação alugada.
- Montar pontas desequilibradas (financeiro diferente) sem perceber que virou aposta direcional.
- Não ter stop de tempo: capital preso meses num par que não converge.
Exemplo
ITUB4 e BBDC4 historicamente andam juntas; o ratio ITUB4/BBDC4 tem média 2,30 com desvio 0,08. Após um resultado trimestral, o ratio estica para 2,46 (z-score = +2). O trader vende R$ 50 mil de ITUB4 e compra R$ 50 mil de BBDC4. Plano: desmontar com ratio de volta a 2,30 (z=0), stop se passar de 2,54 (z=+3) ou após 30 pregões. Em três semanas o ratio recua para 2,31; ele desmonta as duas pontas simultaneamente e embolsa a convergência — o mercado caiu no período, mas a operação era neutra e o resultado veio do relativo.
