O que é
São os dois vazamentos que transformam estratégia lucrativa no papel em estratégia perdedora na conta:
- Custos explícitos: corretagem, emolumentos e taxa de registro. Aparecem na nota, são previsíveis.
- Slippage (derrapagem): a diferença entre o preço que você esperava e o preço que efetivamente saiu. Não aparece em nenhuma linha da nota — aparece só no resultado.
Quanto mais operações você faz e menor o alvo, mais determinante essa conta fica. É o motivo mais comum de um backtest bonito virar prejuízo real.
Como se calcula
`` Resultado líquido = Resultado bruto − custos explícitos − slippage Custo por operação = (corretagem + emolumentos + registro) × 2 [ida e volta] ``
Ordem de grandeza no mini contrato da B3 (referência de 2026 — confirme os valores atuais na sua corretora, eles mudam):
| Item | WIN (mini índice) | WDO (mini dólar) |
|---|---|---|
| Emolumentos + registro | ~R$ 0,25 por contrato | ~R$ 1,20 por contrato |
| Ida e volta (day trade) | ~R$ 0,50 | ~R$ 2,40 |
| Corretagem sem RLP | ~R$ 0,49 por contrato | ~R$ 0,99 por contrato |
| Corretagem com RLP | isenta | isenta |
Valor do ponto: WIN = R$ 0,20 por ponto/contrato. WDO = R$ 10,00 por ponto/contrato.
Slippage é medido comparando o preço-alvo com o executado:
`` Slippage médio = média(|preço executado − preço pretendido|) em pontos ``
Como ler o número
Traduza tudo para pontos do ativo — é a única forma de comparar com o seu alvo:
- Custo de ida e volta no WIN (com RLP): ~R$ 0,50 ÷ R$ 0,20 = 2,5 pontos por contrato.
- Se o seu alvo é de 100 pontos, o custo é 2,5% do alvo. Aceitável.
- Se o seu alvo é de 15 pontos, o custo é 17% do alvo. A estratégia precisa ser excepcional só para empatar.
- Sem RLP, no WIN, o custo de ida e volta sobe para ~R$ 1,48 → 7,4 pontos. Em alvo de 15 pontos, metade do ganho vai embora.
Faixas de referência
- Regra prática: custos + slippage devem ficar abaixo de 5% do alvo médio. Acima de 15%, a estratégia é de alta frequência e depende inteiramente de execução barata.
- Slippage cresce com a volatilidade e com o tamanho da ordem. Em abertura, em dia de payroll ou de Copom, ordem a mercado pode derrapar vários pontos.
- Ordem a mercado derrapa; ordem limitada não derrapa, mas pode não executar. O custo de não executar é real e não aparece em nenhum relatório.
- Imposto de renda em day trade de futuros: 20% sobre o lucro líquido, apurado mensalmente via DARF código 6015. Custos são dedutíveis antes do cálculo — mas o IR não é slippage, é imposto: entra depois, no resultado do mês.
Parâmetros comuns
- Custo de ida e volta WIN com RLP: ~2,5 pontos por contrato.
- Custo de ida e volta WDO com RLP: ~0,24 ponto por contrato (R$ 2,40 ÷ R$ 10).
- Slippage típico de ordem a mercado no WIN em horário normal: 1 a 5 pontos.
- Alvo mínimo saudável considerando custos: 3x o custo total em pontos.
- IR day trade futuros: 20%, DARF 6015, apuração mensal.
Na prática
- Calcule o custo em pontos e compare com o seu alvo antes de operar a estratégia. Se o custo passa de 10% do alvo, mude o alvo ou a estratégia.
- Meça o seu slippage real: exporte as ordens, compare preço pretendido e executado, tire a média por horário. Você vai descobrir que a abertura custa muito mais caro.
- Refaça o backtest com o custo real medido, não com estimativa otimista. A diferença entre Profit Factor bruto e líquido é o quanto da estratégia a operação engole.
- Use RLP quando disponível — a isenção de corretagem muda a viabilidade de estratégias de alvo curto. Entenda a contrapartida: no RLP a contraparte é a própria corretora, não o livro.
- Evite ordem a mercado nos primeiros minutos e em janela de dado macro, onde o spread abre.
Quando falha
Fortes (de medir corretamente):
- É o ajuste que mais muda a avaliação de uma estratégia, e o mais barato de fazer.
- Explica a maior parte dos casos de "funcionava no simulador e não funciona no real".
- Fornece um critério objetivo para escolher entre alvo curto e alvo longo.
- Mostra rapidamente quando a estratégia é inviável por estrutura de custo, não por técnica.
Limitações:
- Slippage é instável: depende de liquidez, horário e tamanho, e a média esconde os extremos.
- Custos mudam (tabela da B3, política da corretora, RLP) — o número de hoje não vale para sempre.
- Simulador e replay quase nunca reproduzem slippage realista.
- O custo de não execução de ordem limitada é invisível e raramente medido.
- Avaliar Profit Factor e expectância sobre resultado bruto. É o erro mais frequente e o mais caro.
- Ignorar slippage porque "é centavos" — em 400 operações no mês, centavos são o resultado.
- Operar alvo de 10–20 pontos no WIN sem RLP.
- Usar ordem a mercado na abertura e atribuir o prejuízo à estratégia.
- Comparar resultado de simulador (sem slippage) com meta de conta real.
Exemplo
Um trader desenvolve uma estratégia de escalpo no WIN: alvo de 25 pontos, stop de 25 pontos, 68% de acerto, 3 contratos, cerca de 22 operações por dia. No backtest bruto:
`` Bruto/dia = 22 × 3 × (0,68 × 25 − 0,32 × 25) × R$ 0,20 = R$ 118,80/dia ``
Parece um bom resultado — R$ 2.376 no mês. Agora o custo real:
- Com RLP (corretagem isenta): 2,5 pontos de custo por contrato ida e volta → 22 × 3 × 2,5 × R$ 0,20 = R$ 33,00/dia.
- Slippage medido dele: 1,2 ponto por operação, em média → 22 × 3 × 1,2 × R$ 0,20 = R$ 15,84/dia.
`` Líquido/dia = 118,80 − 33,00 − 15,84 = R$ 69,96/dia ``
41% do resultado desapareceu, e a estratégia continua lucrativa — mas só por causa do RLP. Refazendo sem RLP (corretagem de R$ 0,49 por contrato, 7,4 pontos de ida e volta):
`` Custo/dia = 22 × 3 × 7,4 × R$ 0,20 = R$ 97,68 Líquido/dia = 118,80 − 97,68 − 15,84 = R$ 5,28/dia ``
A mesma estratégia, com a mesma taxa de acerto, sai de R$ 70/dia para R$ 5/dia. Não foi a técnica que mudou: foi a estrutura de custo. E se ele tivesse usado alvo de 12 pontos em vez de 25, o resultado líquido seria negativo nas duas configurações.
