O que é
Risco por operação é o percentual máximo da banca que você aceita perder em um único trade — a regra clássica fixa esse teto em 1% a 2%. Banca de R$10.000 com regra de 1% = perda máxima de R$100 por trade, aconteça o que acontecer naquela operação.
É a regra-mãe da gestão de risco: dela derivam o tamanho do lote (via distância do stop) e, em cascata, o tamanho máximo dos seus drawdowns. Não confundir com margem, nem com o valor da posição: risco é o que se perde se o stop executar.
Por que importa
Porque o risco por trade determina quantos erros seguidos você sobrevive — e erros seguidos são estatisticamente garantidos em qualquer método.
Efeito de uma sequência de 10 perdas sobre a banca (juros compostos da perda):
| Risco/trade | Banca após 10 perdas | Drawdown | P/ recuperar |
|---|---|---|---|
| 1% | 90,4% | -9,6% | +10,6% |
| 2% | 81,7% | -18,3% | +22,4% |
| 5% | 59,9% | -40,1% | +67,0% |
| 10% | 34,9% | -65,1% | +187% |
| 20% | 10,7% | -89,3% | +834% |
Com 50% de acerto, uma sequência de 10 perdas em ~1.000 trades é esperada; sequências de 6–7 aparecem várias vezes por ano em quem opera diariamente. A leitura da tabela é binária: em 1–2%, a pior sequência plausível é recuperável com o próprio método; de 5% para cima, uma sequência normal exige retornos heroicos — e o trader quase sempre busca o heroísmo aumentando o risco, fechando o ciclo da ruína.
O benefício psicológico é tão importante quanto o matemático: perder 1% permite executar o próximo trade com lucidez. Perder 10% sequestra o cérebro — e o trade seguinte já não é técnico.
Como calcular
`` Risco por trade (R$) = Banca × % de risco Lote = Risco (R$) ÷ (distância do stop em pontos × valor do ponto) ``
Valores do ponto por contrato: WIN R$0,20 | WDO R$10,00. Em ações: risco ÷ (entrada − stop).
Exemplos com 1% de risco:
- Banca R$5.000 → R$50: WIN com stop de 250 pts (R$50/contrato) = 1 contrato; WDO com stop de 8 pts (R$80) = não cabe (0 contratos — não opera esse trade, ou banca maior/stop tecnicamente menor).
- Banca R$15.000 → R$150: WIN stop 300 pts (R$60) = 2 contratos; WDO stop 10 pts (R$100) = 1 contrato.
Como escolher seu número:
- Iniciante / método sem estatística comprovada: 0,5–1%. A prioridade é durar e coletar dados baratos.
- Método validado no diário (30–100+ trades, E > 0): 1–2%.
- Acima de 2% só se justifica com estatística longa, drawdown testado e estômago comprovado — e raramente acima de 3% mesmo entre profissionais (fundos costumam operar bem abaixo de 1% por posição).
- Calibre pelo drawdown-alvo: se você não tolera DD de 20%, e seu método pode enfileirar 10 perdas, seu risco máximo é ~2% (ver tabela).
O risco é da operação inteira: entradas parciais/piramidação somam; duas posições correlacionadas na mesma direção contam como um risco só.
Na prática
- Fixe o número no plano de trading (ex.: 1%) e converta em R$ toda semana com a banca atualizada.
- Antes de cada trade: stop técnico → distância em pontos → lote pela fórmula → arredonda para baixo. Se não cabe 1 contrato, o trade não existe para você.
- Combine com o limite diário: 2–3 stops cheios = fim do dia (transforma a regra de 1% em teto diário de 2–3%).
- Não "compense" stop curto com lote gigante sem checar o ruído: risco financeiro igual, mas stop de 80 pts no WIN dentro do ruído médio vira sequência de violinadas — o stop precisa ser técnico primeiro, o lote se ajusta a ele.
- Mantenha o % fixo nas fases boas e ruins — a fórmula já escala o R$ com a banca; mexer no % ao sabor da emoção destrói a função da regra.
- Reavalie o % apenas em revisão mensal, com dados do diário (drawdown realizado vs. tolerado).
Quando falha
Fortes:
- Reduz o risco de ruína a nível desprezível — matematicamente, é quase impossível quebrar de variância arriscando 1% com stop honrado.
- Padroniza os trades (todo trade vale ~1R) e viabiliza estatística limpa.
- Preserva o psicológico: nenhuma perda individual é significativa.
- Simples de auditar: um número, uma fórmula.
Limitações:
- Crescimento lento — é o custo da sobrevivência; quem busca "dobrar em 3 meses" abandonará a regra (e depois a conta).
- O teto de risco pressupõe stop executado: gaps/slippage podem furar o 1% ocasionalmente (por isso overnight pede risco menor).
- Em bancas muito pequenas, 1% não compra nem o menor stop viável de 1 contrato — a saída honesta é banca maior ou simulador, não risco maior.
- % fixo ignora a qualidade do trade: variações avançadas graduam (ex.: 0,5% em setup B, 1,5% em setup A+) — só com estatística que sustente a diferença.
- Calcular o 1% sobre a "banca dos sonhos" ou sobre o aporte inicial, não sobre o saldo atual.
- Respeitar o 1% no papel e furar na prática: alargar o stop no meio do trade (o risco real virou 2,5%).
- Somar entradas na mesma direção ("piramidei 3 vezes, cada uma com 1%") — o trade virou 3%.
- Aumentar o % após semana boa ("agora opero 4% porque estou confiante").
- Micro-banca com risco de 10% "porque 1% não paga a corretagem" — o problema é a banca, não a regra.
- Aplicar 1% sem limite diário: 8 trades ruins no mesmo dia = -8% "dentro da regra".
Exemplo
Rafa começa com R$8.000 e regra de 1% (R$80/trade), limite de 2 stops/dia.
Mês 1: 44 trades no WIN, stops entre 200–350 pts (lotes de 1 a 2 contratos conforme a fórmula). Pior sequência: 6 perdas seguidas = -R$470 acumulados (-5,9% da banca). Incômodo, operável — Rafa seguiu o método e fechou o mês em +2,1%.
A comparação que a regra evitou: o colega de sala com os mesmos R$8.000 arriscava "R$400 por trade que é pouco" (5%). A mesma sequência de 6 perdas custou a ele -26,5% (R$5.880 restantes). Para voltar, precisa de +36% — e tentou na força do lote: 10 contratos, um stop de 300 pts = -R$600 adicionais. Em 6 semanas, encerrou a conta com 30% do valor inicial.
Mesmo mercado, mesma sequência estatística. A variável que separou os dois destinos foi decidida antes de qualquer trade: o tamanho do risco unitário.
