O que é
São as métricas que respondem: quanto de retorno a estratégia entrega por unidade de dor? Enquanto Sharpe e Sortino usam oscilação como denominador, essas duas usam o drawdown máximo — o pior tombo do pico ao fundo.
- Recovery Factor: lucro total ÷ drawdown máximo (em valor absoluto).
- Calmar: retorno anualizado ÷ drawdown máximo (em %), tradicionalmente sobre 36 meses.
- MAR: a mesma ideia do Calmar, mas usando todo o histórico desde o início, não só 36 meses.
Para o trader de varejo, o Recovery Factor é o mais direto: ele diz quantas vezes o seu lucro paga o seu pior momento.
Como se calcula
`` Recovery Factor = Lucro líquido total / |Drawdown máximo| Calmar = Retorno anualizado (%) / Drawdown máximo (%) MAR = CAGR desde o início (%) / Drawdown máximo (%) ``
Exemplo: lucro de R$ 30.000 no ano, maior drawdown de R$ 10.000.
`` Recovery Factor = 30.000 / 10.000 = 3,0 ``
Ou seja: a estratégia produziu 3 vezes o tamanho do seu pior tombo.
O Calmar foi criado por Terry W. Young em 1991 (o nome é a sigla da empresa dele, CALifornia Managed Accounts Reports) e o MAR por Leon Rose em 1978.
Como ler o número
- Recovery Factor < 1: você ainda não ganhou nem o tamanho do buraco que já passou. Estratégia frágil ou período curto demais.
- Recovery Factor 1 a 2: funciona, mas o drawdown é grande em relação ao ganho — exige estômago.
- Recovery Factor 3+: faixa confortável; a estratégia se paga várias vezes acima da pior queda.
- Calmar 1,5 a 2,0: considerado favorável na avaliação de gestores.
- Números altíssimos em poucos meses não significam nada: o drawdown máximo de um período curto quase sempre subestima o que ainda vem.
Faixas de referência
- Duas estratégias com o mesmo Sharpe podem ter Recovery Factor muito diferente — o Sharpe resume a oscilação média, esses resumem o pior evento.
- O denominador é um único ponto do histórico (o pior). Isso torna a métrica sensível a um evento isolado — e é justamente por isso que ela é útil: é o evento isolado que quebra conta.
- O Calmar não distingue duração: uma estratégia que se recupera do drawdown em 2 semanas e outra que leva 8 meses recebem a mesma nota. Leia junto com o tempo de recuperação.
- Nenhuma das três considera a frequência de drawdowns menores. Cinco quedas de 8% doem diferente de uma de 12%.
Parâmetros comuns
- Calmar clássico: janela de 36 meses.
- MAR: histórico completo desde o início.
- Recovery Factor: período livre, mas declare qual (ano, trimestre, desde o início).
- Sempre em valores líquidos, com custos.
Na prática
- Use o Recovery Factor como filtro de manutenção: setup abaixo de 1 depois de amostra razoável sai da lista.
- Anote também o tempo de recuperação (quantos pregões para voltar ao pico anterior). É a métrica que decide se você aguenta operar a estratégia.
- Recalcule com o drawdown do Monte Carlo, não só com o observado. O drawdown que você viu quase nunca é o pior possível.
- Em torneio, essa é a métrica da sobrevivência. Um Recovery Factor baixo significa que um único mau dia apaga semanas de vantagem no ranking.
- Compare sempre períodos equivalentes — Recovery Factor de 3 meses contra 3 anos não é comparação.
Quando falha
Fortes:
- Falam a língua do trader: retorno contra o pior tombo, não contra desvio-padrão.
- Não assumem distribuição normal dos retornos.
- Expõem estratégias de retorno bonito e drawdown insuportável, que o retorno bruto esconde.
- Fáceis de calcular a partir de qualquer relatório de performance.
Limitações:
- Dependem de um único ponto (o pior drawdown) — ruidosas em amostra curta.
- Ignoram completamente a duração do drawdown e a frequência dos menores.
- O drawdown máximo tende a crescer com o tempo, então o número piora naturalmente em históricos longos.
- Não dizem nada sobre o retorno absoluto: Recovery Factor 5 com lucro de R$ 500 continua sendo lucro de R$ 500.
- Calcular sobre 2 ou 3 meses e tratar como característica permanente da estratégia.
- Confundir Calmar com MAR (janela de 36 meses × histórico completo).
- Ignorar o tempo de recuperação e escolher a estratégia que passa 8 meses no vermelho.
- Usar drawdown de backtest sem custos — o drawdown real é sempre maior.
- Comparar Recovery Factor de estratégias com frequências de operação muito diferentes.
Exemplo
Dois traders da Arena fecham o semestre com o mesmo lucro: R$ 18.000.
- Trader A: drawdown máximo de R$ 4.000 → Recovery Factor 4,5. Recuperou o pior tombo em 9 pregões.
- Trader B: drawdown máximo de R$ 15.000 → Recovery Factor 1,2. Levou 2 meses e meio para voltar ao pico.
O resultado no extrato é idêntico. Mas o trader B passou boa parte do semestre abaixo da máxima anterior, operando sob pressão, e precisaria de um capital muito maior para rodar a mesma estratégia com tranquilidade. Se os dois dobrarem o lote, o A vai a um drawdown de R$ 8.000 e o B a R$ 30.000 — que provavelmente estoura o limite de perda dele.
Mesma linha de chegada, riscos completamente diferentes. O Recovery Factor é a métrica que mostra isso em um número.
